Documento técnico · Metodologia e validação

EmerControl Fogo — Simulador de propagação de incêndios rurais

Simulação da progressão provável de incêndios rurais com o modelo de referência de Rothermel, alimentada por dados reais de Portugal. Documento de referência para uso operacional e escrutínio científico: descreve o que a ferramenta faz, como se aplica no terreno, o modelo subjacente e as linhas de validação — as duas primeiras recalculadas em tempo real ao carregar a página.

Base: Rothermel (1972) · Albini (1976) Validação: 4 linhas independentes Âmbito: apoio à decisão, não despacho Atualizado: 13 de agosto de 2026 Cálculo ao vivo:

Resumo

O EmerControl Fogo simula a progressão provável de incêndios rurais com o modelo de referência internacional de Rothermel, alimentado por dados reais de relevo, combustível e meteorologia de Portugal. Responde, de forma visual e transparente, a «para onde e a que ritmo pode ir o fogo», e relaciona essa progressão com povoações, vias e o ambiente. É uma ferramenta de apoio ao planeamento, prevenção, formação e consciência situacional — não uma previsão determinística única. O seu valor está na gama plausível de evolução e na incerteza que comunica, não numa linha exata.

A fiabilidade assenta em quatro linhas de validação independentes, todas reproduzíveis. As duas primeiras são calculadas ao vivo nesta página (não são afirmadas); a terceira é o back-test contra incêndios reais do ICNF; a quarta, exploratória, confronta a chegada da frente no tempo com satélite geostacionário.

1 · Implementação correta Desvio máximo face ao modelo canónico de Rothermel/Albini (o mesmo que o BehavePlus resolve), para combustível de classe única. Calculado ao vivo em combinações.
2 · Resposta física Desvio máximo na resposta a vento, declive e humidade, em toda a gama operacional. Calculado ao vivo.
3 · Incêndios reais (ICNF)38,4 % Índice de Jaccard mediano no baseline de 50 casos ICNF executáveis (média 36,5 %): 8 de validação forte + 42 de calibração com ignição estimada. Medido a 16-08-2026, 50/50 casos sem falhas.
4 · Chegada no tempo~3,5 h Erro absoluto mediano da hora de chegada face a deteções de satélite (8 fogos, 272 locais comparáveis). O ETA é uma ordem de grandeza, não um valor ao minuto.

Como se usa no terreno operacional

O procedimento é breve: marcar o foco, confirmar o ambiente e ler a projeção. A aplicação carrega automaticamente o relevo, o combustível, a meteorologia e a rede viária da zona. Todos os produtos de decisão derivam do mesmo motor.

1 · Ignição e combustível

2 · Ambiente e barreiras

3 · Ler a projeção

4 · Correções e supressão

5 · Incêndio já a decorrer

6 · Registo e auditoria

A leitura é sempre indicativa: se vento local, combustível, barreiras, projeções de faúlhas ou contenção real diferirem do cenário introduzido, o resultado deve ser revisto no terreno.

O modelo físico científico

Dados reais e proveniência

Camadas de entrada, fonte, resolução e comportamento de reserva.

CamadaFonteResoluçãoReserva se falhar
Relevo (DEM)AWS Terrain Tiles (terrarium, SRTM/Copernicus)~30 mCopernicus GLO-90; estimativa local
CombustívelOcupação do solo Sentinel-2 (Esri/Impact Observatory) + OpenStreetMap10 mEstimativa determinística
Meteorologia (tempo real)Observação IPMA + previsão horária Open-Meteo, ancorada na observaçãoEstação / horáriaIntrodução manual
Meteorologia (histórico)ERA5 (Open-Meteo Archive)~25 km / horária
Índice de seca (KBDI)Precipitação acumulada ERA5DiáriaSem correção de seca (mantém humidade meteorológica)
Perímetros oficiais de áreas ardidasICNF/SGIF WFS — áreas ardidasVetorialSó entra no back-test com geometria e datas válidas
Deteção de fogo ativo (satélite)NASA FIRMS (VIIRS 375 m + MODIS 1 km) · MSG SEVIRI FRP 15 min (LSA SAF/IPMA)375 m–3 kmValidação temporal e — no modo incêndio já a decorrer — perímetro de partida declarado como satélite, nunca como observação de campo
Vias, água, aceiros, povoações, pontos críticosOpenStreetMap via OverpassVetorialSem barreiras/contexto (não são inventados)
Pontos críticos da entidadeGeoJSON (Point/MultiPoint) importado pelo utilizador; guardado só neste navegadorVetorial/pontualIdentificados como Dados locais, distintos do OSM; sem sincronização entre postos nem auditoria central
Frente observada (modo ao vivo)Operador, equipa no terreno, COS, drone, visual ou rádioVetorial/manualOpcional; só deve ser assimilada quando a observação é confiável

Condição meteorológica inicial: quando existe observação IPMA válida, ela é mantida como estado de arranque. A previsão horária Open-Meteo é usada para a evolução futura e entra gradualmente nos primeiros 15 minutos simulados, evitando um salto artificial no início. A observação IPMA é reconsultada a cada 10 min reais e a previsão a cada 15 min reais; em falha temporária, conserva-se o último valor válido. A humidade é limitada ao intervalo operacional de 5 % a 100 %.

Dados vivos nunca são servidos em silêncio a partir da cache: a meteorologia, a observação IPMA e os focos de satélite vão sempre à rede primeiro; a cópia guardada só é usada quando a rede falha, e nesse caso a aplicação identifica-a como tal — o painel de saúde deixa de estar verde e passa a indicar a idade do dado guardado. O pacote offline continua a servir de imediato o que não muda com o tempo (aplicação, mapa base, relevo, ocupação do solo), que é o que permite abrir e operar sem rede.

Origem observada: a coordenada de ignição confirmada tem precedência sobre a classificação automática local. A inferência de combustível adjacente fica limitada à célula inicial e é registada no contexto operacional. Cada resultado indica a sua proveniência; quando um serviço falha, a aplicação degrada de forma controlada e marca explicitamente os dados como estimados — nunca apresenta dados inventados como oficiais.

Validação — quatro linhas independentes científico

Linha 1 · A implementação reproduz o modelo canónico ao vivo

O motor de produção (simplificação de duas classes) é comparado com uma reimplementação independente e completa do modelo de Rothermel/Albini com classes de dimensão explícitas — o mesmo modelo que o BehavePlus resolve. Para combustível de classe única, as duas resolvem as mesmas equações e devem coincidir a menos de erro numérico. Resultado (calculado ao vivo, combinações de S/V, carga, profundidade, humidade, vento e declive): desvio máximo . As equações do núcleo (intensidade de reação, fluxo propagante, fatores de vento e declive, dissipador de calor) estão corretamente implementadas. Reproduzível em dev/benchmark.html.

A simplificação de duas classes aplica-se aos combustíveis finos (erva, mato — o que domina o incêndio rural português), com desvio mediano de ~20 % face ao modelo completo; cargas mortas pesadas e mistas (cortes/slash, floresta densa) estão fora do âmbito e não representam a vegetação portuguesa.

Linha 2 · A resposta é fisicamente correta em toda a gama ao vivo

A velocidade foi varrida ao longo de todo o intervalo operacional de cada fator e comparada com o modelo de referência. Resultado (calculado ao vivo): desvio máximo . O comportamento confirma o esperado de Rothermel:

Reproduzível em dev/sensibilidade.html.

Linha 3 · Fidelidade a incêndios reais (back-testing ICNF)

O motor foi corrido contra 50 incêndios reais ICNF executáveis, com perímetro oficial, meteorologia horária arquivada, DEM real, combustível real/estimado e comparação por índice de Jaccard. Destes, 8 têm validação forte (ponto e hora de ignição conhecidos ou robustos) e 42 são calibração estimada (ignição inferida por método reproduzível). O baseline global apresenta 38,4 % de Jaccard mediano e 36,5 % de média; a validação forte é lida em separado, para não confundir evidência independente com calibração operacional.

Valores de 16 de agosto de 2026, primeira medição em que o back-test exercita a projeção de faúlhas (ver a nota de método em âmbito de aplicação). Corrida completa: 50 de 50 casos, nenhuma falha. Face à medição anterior a projeção mexeu 32 dos 48 casos comparáveis — 17 melhores, 15 piores — com o agregado praticamente inalterado e a validação forte a melhorar (mediana 20,5 % → 21,1 %, média 19,8 % → 20,2 %). O maior recuo isolado foi Almodôvar (57,8 % → 51,8 %), um caso já diagnosticado como sobrepropagação: mais projeção espalha mais, e a precisão cai.

Índice de Jaccard (sobreposição da mancha simulada com o perímetro oficial) por conjunto de casos.

ConjuntoCasosJaccard medianoMédiaLeitura
Validação forte821,1 %20,2 %Ponto/hora de ignição conhecidos; leitura independente mais exigente.
Calibração estimada4241,4 %39,6 %Ignição inferida por método reproduzível; para calibração, não para validar sozinho.
Baseline 505038,4 %36,5 %8 validação forte + 42 calibração estimada.
Janela próxima do final1842,8 %42,8 %Quando a simulação cobre quase todo o período oficial (comparação mais justa).
Primeira fase vs perímetro final2433,2 %30,6 %Comparação conservadora; penaliza eventos longos com combate e reacendimentos.

O modelo reproduz melhor fogos moderados e bem delimitados, e subestima grandes eventos de vento extremo, convectivos, longos de vários dias, e ocorrências onde a contenção real alterou a mancha final. Um Jaccard de 0,15–0,5 é comum em modelos operacionais sem assimilação de dados. Reproduzível por linha de comandos com tools/backtest-perimetro.mjs (combustível estimado) ou, com a carta Sentinel-2 real, na ferramenta interna dev/backtest.html — a pasta dev/ é de validação e está protegida por password no servidor, pelo que não é uma ligação pública.

Estes números foram re-medidos nos 50 casos com o motor atual (humidade do combustível morto com atraso 1h/10h e fogo de copas explícito de Van Wagner). As barreiras viárias ficam inativas no back-test (corre sem contexto operacional), pelo que só a física de propagação é avaliada. Um diagnóstico antes/depois no mesmo código confirmou que as duas melhorias de física são ligeiramente positivas também no combustível real Sentinel-2.

Física vs supressão — a janela de comparação justa

O perímetro oficial é o resultado final, moldado pelo combate (o fogo foi contido). O back-test corre sem supressão, por isso, com tempo, ultrapassa o que os bombeiros seguraram — e o Jaccard face ao perímetro final passa a penalizar a física por algo que é supressão. Um diagnóstico dedicado confirmou-o: dado tempo, o modelo cobre o fogo real e depois sobre-alastra (ex.: Oleiros atinge recall 85 % na janela de melhor sobreposição, e só depois cresce para lá do perímetro contido).

Por isso o back-test reporta agora duas leituras: a janela justa — a melhor sobreposição no tempo, que mede a fidelidade da física — e o fim do horizonte, que inclui a divergência por supressão. A física reproduz os fogos melhor do que o número final sugeria; a diferença entre as duas leituras é, em boa parte, o combate real que o modelo, por desenho, não simula.

Não é a física a alastrar devagar

Ao contrário do que um Jaccard final baixo sugere, o modelo não sub-propaga por ser lento — dado tempo, chega a cobrir e a ultrapassar o perímetro real. Aumentar a velocidade de propagação pioraria. O que falta é modelar a contenção e casar a janela de comparação com a duração de crescimento ativo de cada fogo — não acelerar a física.

Linha 4 · Chegada da frente no tempo — satélite geostacionário exploratória

As três primeiras linhas validam a forma (mancha) e a física. Esta quarta ataca o tempo: quando é que a frente chega a cada sítio? Comparámos a hora simulada de chegada com a hora a que o satélite geostacionário MSG SEVIRI (produto FRP-PIXEL do LSA SAF/IPMA, 3 km, uma passagem a cada 15 minutos) viu fogo pela primeira vez em cada local, nos 7 fogos de validação forte que o satélite consegue observar. Ao contrário dos satélites polares (VIIRS/MODIS, revisita de horas), o geostacionário cobre a janela ativa da tarde e da noite.

O que se conseguiu, e o que não se conseguiu

A cadência da verdade-terreno passou de ~51 min (VIIRS) para ~18 min — o teto de revisita do satélite foi quebrado. Mas o erro temporal não é calibrável de forma fiável: o modelo sub-propaga estes fogos fortes no espaço (Jaccard baixo), pelo que apenas 24 de 150 locais ficam comparáveis, e o píxel de 3 km do satélite «vê» o fogo cedo, inflando a aparente lentidão do modelo. Onde há comparação suficiente, o modelo tende a ser otimista — a frente real chega mais cedo do que o previsto.

«Sub-propaga» aqui e «ultrapassa o fogo real» na Linha 3 — porque não é contradição

As duas leituras medem momentos diferentes. A Linha 4 compara em instantes emparelhados: à hora a que o satélite viu fogo num local, a frente simulada ainda lá não chegou — o modelo está atrasado no espaço durante a janela observada. A Linha 3 mede o estado final sem supressão: deixado a correr, o modelo acaba por cobrir e depois exceder o perímetro que o combate conteve.

Ambas são verdade e é isso que torna o problema interessante: acelerar a física corrigiria uma e estragaria a outra. O que falta não é velocidade de propagação — é modelar a contenção e emparelhar a janela de comparação com a duração de crescimento ativo de cada fogo. Note-se ainda que o viés de discretização empurra no mesmo sentido do atraso: na resolução operacional (12,5 m) o motor é mais lento do que naquela em que foi calibrado (≥50 m).

Leitura honesta. Não há um fator de correção temporal a extrair — a limitação de fundo que esta linha revela é a sub-propagação espacial dos grandes fogos, não a calibração do relógio. O sinal útil é apenas uma direção (o modelo é otimista), que se traduz numa margem de segurança na ETA (ver secção 6), nunca numa magnitude inventada. Limitação: o SEVIRI é cego aos fogos piroconvectivos mais extremos (ex.: Pedrógão 2017) — a própria pluma é mascarada como nuvem. Reproduzível com tools/fetch-seviri.mjstools/ingest-seviri.mjstools/backtest-eta-temporal.mjs --candidates.

Fatores considerados pelo simulador

O modelo não usa um único indicador de risco. A simulação combina ~20 fatores principais, agrupados em seis famílias técnicas. Alguns são variáveis físicas diretas; outros são camadas de contexto ou mecanismos de validação usados para enquadrar o resultado.

Famílias de fatores, forma de entrada no cálculo e limitação principal de cada uma.

Família técnicaFatores consideradosComo entram no cálculoLimitação principal
Ignição e tempoPonto de ignição; hora de início; duração simulada; passo temporalDefine origem, janela meteorológica e evolução célula a célula.Em alguns back-tests a ignição é estimada, não oficial.
Meteorologia e vento localTemperatura; humidade; velocidade e direção do vento; campo de vento diagnósticoDetermina humidade fina, direção dominante e aceleração da frente; o vento regional é redistribuído pelo relevo.Modelo diagnóstico estático (não resolve convecção nem downbursts).
Terreno e relevoAltitude; declive; orientação da encostaCombina declive e vento vetorialmente e ajusta a propagação por encosta/vale.DEM ~30 m pode suavizar ravinas e pequenas barreiras.
CombustívelTipo; carga; profundidade; relação S/V; humidade viva e morta; continuidade; seca acumuladaAlimenta Rothermel/Albini e decide se a célula arde, abranda ou trava.Classificação automática Sentinel-2/OSM pode falhar localmente.
Propagação e obstáculosRothermel; forma elíptica; barreiras dependentes da intensidade; projeção de faúlhas por coluna convectiva (Albini); fogo de copas (Van Wagner)Calcula velocidade por direção, frente ativa, travagens por comprimento de chama e alcance dos saltos de faúlha a partir da intensidade da frente.A projeção é estocástica: o alcance é plausível, a posição de cada foco não é previsível. Convecção extrema fora de âmbito.
Validação e incertezaBack-test ICNF; validação temporal SEVIRI; resolução da grelha; domínio; envelope probabilístico; frente observada; saúde das fontesEnquadra a comparação com o ICNF, a incerteza de cenário e a leitura operacional.Combate dinâmico, reacendimentos e decisões humanas não são previstos no modo ao vivo.

O perfil de calibração está fixo em Operacional (a física validada); a margem de incerteza fica a cargo do envelope de probabilidade, e não de um multiplicador manual. A classificação de combustível é automática por defeito; a correção manual existe apenas ao nível do setor, para o operador acertar o que vê no terreno.

Como a incerteza é comunicada

Como ler o «tempo previsto»

O número central é a hora que a frente simulada prevê — coerente com a linha amarela no mapa. Trata o lado cedo do intervalo provável como o valor de planeamento: a evidência de satélite indica que a frente real tende a chegar antes do previsto, não depois.

Âmbito de aplicação

Como qualquer modelo de propagação de superfície, o EmerControl Fogo tem um domínio bem definido. Ser transparente sobre ele é o que o torna fiável.

Onde é forte

  • Fogos de superfície em combustível fino — erva, mato, pinhal/eucaliptal com sub-bosque, o que domina o incêndio rural português.
  • Condições moderadas a severas de vento, temperatura e humidade.
  • Leitura da direção e ritmo prováveis, setores, isócronas e envelope de incerteza.
  • Planeamento, prevenção, formação e preparação de exercícios.

Onde tem limites

  • Comportamento eruptivo (limite estrutural, não afinável): em desfiladeiros e encostas de forte declive o fogo pode entrar num regime dinâmico em que a velocidade cresce ao longo do tempo por convecção induzida pelo próprio fogo, podendo atingir cerca de cem vezes — e em casos documentados muito mais — a velocidade básica de propagação, sem qualquer alteração externa de vento (Viegas). Um modelo do tipo Rothermel dá a velocidade de uma frente em regime estabelecido e, por construção, não representa este regime: nesses locais a projeção deve ser lida como limite inferior. Como a ocorrência depende sobretudo da configuração do terreno, e pouco da meteorologia, a aplicação avalia essa geometria no relevo e emite um aviso (ver como se usa) — não corrige a velocidade, que seria inventar física não validada.
  • Vento extremo: rajadas e downbursts locais estão abaixo da resolução da meteorologia (~25 km) — o modelo tende a subestimar, e a aplicação sinaliza esse risco.
  • Perímetros contidos por combate: os perímetros oficiais são moldados por supressão, que o back-test não simula. Sem contenção, correr muito tempo faz o modelo ultrapassar o fogo real — por isso a fidelidade da física lê-se na janela justa (Linha 3), não no perímetro final.
  • Viés de discretização (medido em 12-08-2026): o autómato celular não é exatamente invariante à resolução. Com a mesma física, meteorologia e combustível, e mudando só o tamanho da célula, um matos com vento de 20 km/h a 90 min dá 339 ha a 12,5 m, 356 ha a 25 m (+5 %) e 395 ha a 50 m (+17 %); um fogo fraco inverte o sinal (−10 % a 50 m). Célula grossa acelera o fogo conduzido pelo vento e trava o fogo fraco. Isto importa porque o back-test corre a ≥50 m por célula (os perímetros oficiais são grandes) enquanto a aplicação opera a 12,5 m: re-correndo os mesmos quatro casos fortes em resolução mais fina, o Jaccard desce em todos, sobretudo por recall — Aljezur 64,5 % (70 m) → 61,2 % (25 m), Ourém 19,8 % → 17,6 %, Moncorvo 7,7 % → 6,7 %, Vimioso 2,2 % → 2,2 %. Ou seja, na resolução operacional o modelo é mais lento do que na resolução em que foi calibrado, e o ETA tende para tarde — mais uma razão para planear pelo lado mais cedo da janela. Três testes de sanidade fixam o desvio medido como teto, para não se agravar sem se dar por isso.
  • Projeção de faúlhas — estocástica por natureza (revista em 15-08-2026): a distância passou a sair de uma cadeia física fechada (intensidade → coluna convectiva → voo → ignição no leito recetor) em vez de uma fórmula de rajada. Isso corrigiu o defeito que a motivou — uma frente lenta (cabeça <0,5 km/h) chegava a atirar faúlhas a mais de 1 km porque a intensidade do fogo não entrava no cálculo da distância; agora não projeta de todo, porque não tem coluna que sustente a faúlha. Mantém-se, porém, um limite de fundo: o número e a posição de cada foco secundário são um sorteio, não uma previsão. Ler o alcance como até onde é plausível, nunca como onde vai cair. Os parâmetros da faúlha por espécie (velocidade de queda, tempo de extinção) são valores típicos da literatura, não medidos para combustíveis portugueses — é a lacuna de calibração mais evidente deste bloco. Fora de âmbito: projeção por árvore isolada em torchamento e o efeito do relevo no ponto de queda.
    Nota de método: até 15-08-2026 o back-test não pedia a rajada ao arquivo meteorológico, pelo que corria com rajada = vento sustentado e o limiar de projeção só era atingido em 6 dos 50 casos — validava-se um motor sem projeção enquanto a aplicação corria com ela. Corrigido: o arquivo passou a fornecer a rajada tal como a previsão já fornecia, e 5 dos 8 casos fortes passaram a gerar focos secundários. Nos restantes (Pedrógão Grande, Vila de Rei, Chaves) o modelo continua a não projetar — não por falta de vento, mas porque com o vento regional arquivado a frente modelada é lenta (0,4–0,7 km/h) e não levanta coluna. É o mesmo limite de vento extremo listado acima, a manifestar-se noutro mecanismo.
  • Combustível automático pode errar localmente; a humidade é estimada, não medida.
  • Contenção dinâmica por meios de combate não é inferida automaticamente; uma linha de defesa só é descontada depois de confirmada como preparada no terreno.

Para que serve, e o que não sustenta

Esta secção existia antes como uma pontuação (68/100 agregado, e uma nota por dimensão). Essas pontuações foram retiradas: eram um juízo sem método declarado, apresentado com a mesma autoridade visual dos benchmarks que esta página calcula ao vivo. Em vez de um número inventado, cada dimensão é aqui declarada pela evidência que existe — o que foi medido, como se reproduz, e a fronteira do que a medição autoriza afirmar. Onde não há medição, diz-se que não há.

Evidência por dimensão e fronteira de utilização.

DimensãoEvidência medidaComo reproduzirSustenta / não sustenta
Implementação do modelo Desvio máximo 0,000 % face a uma reimplementação independente de Rothermel/Albini, em 108 combinações. Recalculado ao vivo no topo desta página; dev/benchmark.html. Sustenta: as equações estão corretamente implementadas. Não sustenta: nada sobre o mundo real — é uma verificação de código contra matemática.
Resposta física Desvio máximo 0,000 % na varredura de vento, declive e humidade em toda a gama operacional. Recalculado ao vivo; dev/sensibilidade.html. Sustenta: monotonia e coerência física em toda a gama. Não sustenta: exatidão do valor absoluto num incêndio concreto.
Forma da mancha em incêndios reais Jaccard mediano 38,4 % em 50 casos ICNF; 21,1 % nos 8 de validação forte, lidos em separado (16-08-2026, 50/50 sem falhas). tools/backtest-perimetro.mjs (CLI) ou dev/backtest.html (interno, pasta protegida). Sustenta: direção e ordem de grandeza da progressão. Não sustenta: previsão do perímetro final — que é moldado por supressão, não simulada.
Chegada da frente no tempo (ETA) Erro à escala de horas: erro absoluto mediano ~3,5 h e apenas 3,7 % dos locais dentro de 15 min (8 fogos, 272 píxeis comparáveis, deteções FIRMS/VIIRS, combustível estimado, 03-08-2026). tools/backtest-eta-temporal.mjs; resultado bruto em dados/backtests/cli-results/. Sustenta: ordem de chegada entre pontos e planeamento pelo lado cedo da janela. Não sustenta: ETA ao minuto — e a própria verdade-terreno de satélite (píxel de 375 m a 3 km, revisita de dezenas de minutos) é um teto à precisão medível.
Resolução operacional vs. validada Viés de discretização medido: +5 % de área a 25 m e +17 % a 50 m face a 12,5 m. Em tempos de chegada, a aplicação (12,5 m) dá o ETA ~9 % mais tarde que o motor calibrado (mediana de 23 casos; 38 % no pior). O back-test corre a ≥50 m; a aplicação opera a 12,5 m. Três testes em dev/sanity-tests.mjs; tools/backtest-perimetro.mjs --cell-size; dados/backtests/vies-resolucao-vs-margem-eta.json. Sustenta: saber o sentido do desvio (ETA para tarde) e que a margem do lado cedo da janela o cobre em todos os casos medidos. Não sustenta: um fator de correção da física — corrigi-la obrigaria a re-medir os 50 casos do back-test para republicar todos os números.
Incêndio em curso (evento ativo) Sem medição própria publicada. Herda as linhas acima e depende da qualidade do perímetro de satélite e das correções do operador. Sustenta: leitura de tendência e limite plausível a partir de um estado observado. Não sustenta: despacho autónomo, combate dinâmico, reacendimentos ou decisões humanas — nada disso é simulado.

Regra que esta página segue: um número só aparece se houver forma de o reproduzir. Quando a evidência não existe, o que se declara é a ausência dela — não uma estimativa de confiança.

Uso responsável

As estimativas são indicativas, para apoio e triagem técnica, planeamento e formação. Não são certificadas para despacho operacional real nem substituem a análise e a decisão das autoridades e responsáveis operacionais.

Referências

  1. Rothermel, R. C. (1972). A mathematical model for predicting fire spread in wildland fuels. USDA Forest Service, INT-115.
  2. Albini, F. A. (1976). Estimating wildfire behavior and effects. USDA Forest Service, INT-30.
  3. Anderson, H. E. (1983). Predicting wind-driven wildland fire size and shape. USDA Forest Service, INT-305.
  4. Fosberg, M. A., & Deeming, J. E. (1971). Derivation of the 1- and 10-hour timelag fuel moisture calculations. USDA Forest Service, RM-207.
  5. Byram, G. M. (1959). Combustion of forest fuels. In Forest Fire: Control and Use (pp. 61–89).
  6. Van Wagner, C. E. (1977). Conditions for the start and spread of crown fire. Canadian Journal of Forest Research, 7(1), 23–34.
  7. Albini, F. A. (1979). Spot fire distance from burning trees — a predictive model. USDA Forest Service, INT-56.
  8. Albini, F. A. (1983). Potential spotting distance from wind-driven surface fires. USDA Forest Service, INT-309. — base da cadeia produção→elevação→transporte→ignição usada na projeção de faúlhas.
  9. Wooster, M. J., et al. (2015). LSA SAF Meteosat SEVIRI Fire Radiative Power products. Atmospheric Chemistry and Physics, 15, 13217–13239.
  10. Viegas, D. X. Comportamento do Fogo e Segurança Pessoal. ADAI/CEIF, Universidade de Coimbra. — base do aviso de terreno propenso a comportamento eruptivo.
  11. Comissão de Inquérito (2006). Relatório do Inquérito Preliminar ao acidente ocorrido em 9 de Julho de 2006 no Incêndio Florestal de Famalicão da Serra, Guarda. SNBPC. — caso documentado de comportamento eruptivo em desfiladeiro, com cronologia de progressão e condições ambientais observadas.